* Por Alex Cabral
Um estudo recente feito pelo Centro de Pesquisa em Hospitalidade da renomada Cornell University, nos Estados Unidos, revelou dois fatos aparentemente contraditórios sobre a visibilidade hoteleira nas buscas por Inteligência Artificial (IA). Mas, é na tensão entre eles que está uma grande oportunidade para hotéis independentes e pousadas.
O levantamento, que analisou o comportamento de mais de mil viajantes, apontou que mais de 90% dos hotéis são invisíveis nos modelos de IA. Ao mesmo tempo, a pesquisa mostra que a IA é a quarta ferramenta mais utilizada no planejamento de viagens, ficando atrás de mecanismos de busca, sites de avaliação e sites próprios dos estabelecimentos.
Em outras palavras: as plataformas ainda não dominam a conversão final, mas já excluem quase todo mundo logo no início da jornada de compra do viajante.
Essa dinâmica reflete um novo caminho de decisão do viajante. A IA é utilizada na fases de inspiração, comparação e planejamento de itinerário, ou seja, a criação da lista restrita de opções antes que o viajante chegue a um OTA (Agência de Viagens Online como o Booking.com), um site de metabusca (TripAdvisor, Trivago etc.) ou ao próprio site do hotel.
A conclusão é que hotéis e demais estabelecimentos que não entram na lista inicial, simplesmente nunca chegam ao resto do processo. E essa shortlist é binária.
Quando um hotel tem um desempenho ruim nas páginas de resultados de buscadores, não significa que ele não exista, ele só não figura na primeira ou segunda páginas, e uma pessoa determinada a ver várias opções ainda pode encontrá-lo. Já um assistente de IA como o ChatGPT funciona de forma binária. Ele não dirá: “Aqui estão cinco resultados e mais 100 para considerar”. Ele mostra cinco sugestões principais para um pedido específico. Isso nos faz concluir que a busca tradicional é uma fila e a busca por IA é um portão.
Agora preste atenção porque aqui vai um dado fundamental que reescreve completamente a estratégia para quem administra uma propriedade de hospedagem. O estudo da Cornell categorizou os viajantes norte-americanos em quatro categorias por faixa de gasto: econômico, padrão, aspiracional e luxo.
De forma resumida, o viajante econômico usa a IA para comparar preços. O premium, para descobrir o que fazer no destino e seu hotel é próximo dos seus destinos turísticos. O de luxo usa a IA para fazer pesquisa factual e rápida, mas continua preferindo consultor humano na hora de montar a viagem. Já o aspiracional, faixa entre premium e luxo, é o grupo que mais recorre à IA para sugestões de hotéis, usando-a como um filtro para refinar opções que atendam a padrões elevados de qualidade, como localização privilegiada e comodidades.
Leia de novo: quem mais confia na máquina para selecionar um local para se hospedar não é o que caça preço nem o que compra concierge (assistência pessoal). É aquele que procura uma propriedade com alto padrão de qualidade e personalidade. É exatamente o tipo de viajante que reserva quartos em charmosas pousadas em Tiradentes, Paraty, serras gaúchas e por aí vai.
Repare na diferença de verbo. O econômico usa IA para comparar. O premium usa para descobrir. O aspiracional usa para escolher onde dormir. É o único dos quatro em que a máquina participa diretamente da decisão de hospedagem.
E o critério declarado dele é localização e padrão de comodidades. Ou seja: exatamente a conversa em que uma pousada bem localizada e bem equipada vence um hotel de bandeira em avenida movimentada, desde que a informação esteja disponível para a máquina ler.
Como hotéis independentes podem vencer na era da IA
O modelo tradicional de SEO (ou otimização para mecanismos de busca) favorecia grandes redes, pois elas podiam pagar por palavras-chave genéricas e criar centenas de páginas padronizadas. Essa vantagem é diluída quando se trata de busca conversacional.
A mudança da pesquisa tradicional por palavras-chave para a pesquisa conversacional impulsionada por IA é o passo mais significativo para democratizar o marketing hoteleiro nos últimos 20 anos. Com a pesquisa tradicional do Google, as grandes redes sempre estavam na primeira página porque gastavam milhões para comprar anúncios, publicavam milhares de páginas padronizadas e ganhavam palavras-chave genéricas como “hotel em Salvador” ou “resort na praia”.
Essa vantagem em termos de dinheiro e escala desaparece dentro dos assistentes de IA porque ela não calcula a relevância pelo valor do lance em um leilão de mídia, mas escolhe pela densidade contextual, especificidade e consenso de reputação.
Os viajantes não fazem perguntas genéricas em uma plataforma de IA conversacional. Em vez de perguntar “hotel em Tiradentes”, elas fazem solicitações muito específicas e detalhadas, como “Estou procurando uma pousada aconchegante em Tiradentes com lareira no quarto, café da manhã servido após as 10h e acessibilidade para idosos”.
Para as grandes redes, a padronização operacional é uma de suas principais estratégias; elas visam oferecer a mesma coisa em todos os quartos, com 300 quartos muito similares. Para os independentes, é o oposto, pois eles são moldados por suas particularidades. Quanto mais específica for a solicitação do viajante, maior é a chance do hotel boutique ou a pousada aconchegante ser a resposta do algoritmo, já que seu produto e serviços são únicos.
Outro ponto a favor que pode favorecer estabelecimentos independentes: os assistentes de IA não analisam simplesmente as avaliações de hóspedes por pontuação ou estrelas, eles conseguem ler e sintetizar a linguagem natural dos comentários.
Então, enquanto as opiniões sobre grandes redes geralmente são muito simples sobre a experiência (check-in rápido, bom chuveiro e ótima localização, próximo ao centro de convenções), os relatos sobre as propriedades independentes tendem a receber narrativas muito mais longas e pessoais como: “o anfitrião nos serviu bolo e pão caseiro no check in”, “eles fizeram uma infusão especial quando meu filho pegou um resfriado” etc.
A IA usa esse tipo de detalhe como evidência para fornecer recomendações. Portanto, quando o viajante pede uma indicação baseada em acolhimento ou experiência autêntica, os dados de sentimentos em avaliações da hospedagem independente tornam-se muito mais ricos do que as informações padronizadas dos grandes grupos.
Esse mesmo raciocínio vale para os websites. Para ser recomendado como resposta, a propriedade deve existir como uma entidade reconhecida pela IA.
Na maioria das vezes, as grandes marcas centralizam seus sites na própria marca, com informações sobre cada uma das propriedades e suas comodidades internas.
As propriedades independentes, por sua vez, podem – ou melhor, devem – transformar seus sites em um centro de informações sobre sua própria região. Se o site publica, por exemplo, “os melhores locais de comida de rua da cidade”, “as melhores trilhas para caminhada em caso de chuva” ou “história da arquitetura local”, a IA usará essas informações como referência para responder a perguntas relacionadas a viagens. E, uma vez que reconhece seu site como uma autoridade na área, sugerir sua propriedade se torna parte dessa resposta.
O que fazer para ser citado pela IA
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Use nome, endereço e razão social idênticos no site, no Google Meu Negócio e em todas as OTAs, porque os assistentes comparam informações de diferentes fontes e qualquer discrepância quebra o pareamento.
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Transforme adjetivos em substantivos. “Cama aconchegante” não diz nada. “Cama king size de frente para a serra, com enxoval feito por artesãos locais” diz tudo.
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Crie um consenso de avaliações positivas em plataformas externas. Assistentes de IA não confiam apenas no seu site oficial, eles também leem avaliações do TripAdvisor, Google e outras OTAs. Se você promete “tranquilo”, mas o adjetivo mais comum no feedback dos hóspedes é “barulhento”, a IA não o recomendaria a viajantes que procuram um “lugar tranquilo”. Preste atenção aos termos recorrentes em suas melhores avaliações e use-os como base de sua comunicação.
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Use marcadores de dados estruturados no site, ou seja , um sistema de código que converte os recursos do seu hotel (piscina aquecida, aceita animais de estimação, estacionamento gratuito, proximidade com o centro da cidade) em um formato que as máquinas podem ler, entender e processar perfeitamente. É isso que dá ao algoritmo um entendimento claro dos detalhes do seu hotel.
Em um mercado como o do Brasil, onde 55% das reservas são feitas por meio de intermediários e a indústria paga centenas de milhões de reais anualmente em comissões para OTAs, a presença direta em assistentes de IA deixou de ser um exercício de inovação. Quem dominar a arte de falar com algoritmos, fará um movimento estratégico para salvaguardar as margens de lucro e a autonomia da marca.
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* Alex Cabral é especialista em Buscas por IA e gestão de reputação de marcas e empresas. Em 2018 fundou a Modocon Comunicação, agência que estabeleceu o conceito de Reputação Generativa, que reúne técnicas de Relações Públicas e otimizações para busca (SEO ou Search Engine Optimization) e presença nas respostas e resumos de IA (GEO ou Generative Engine Optimization e AEO ou Answer Engine Optimization), sendo que cada resultado obtido gera o próximo, funcionando como uma engrenagem. Com mais de 25 anos de atuação na área de Comunicação Corporativa, antes de empreender, liderou estratégias de reputação na subsidiária brasileira da SAP.




