IA e plataformas integradas avançam sobre vendas, pagamentos e operações, mas o setor ainda enfrenta sistemas fragmentados e dados dispersos.
Uma viagem pode começar em uma conversa no celular, passar por uma plataforma de reservas, acionar um pagamento digital e terminar registrada no financeiro. Essa sequência ajuda a explicar por que o turismo começa a funcionar como uma indústria de software: boa parte da operação depende de plataformas que conectam dados, fornecedores e decisões em tempo real.
Bruno Bazoti, fundador e CEO da Larian AI, empresa de tecnologia no ramo do turismo, acompanha essa mudança a partir da digitalização dos processos do setor. O movimento alcança companhias aéreas, hotéis, aeroportos, operadoras e empresas responsáveis pela distribuição e gestão dos serviços turísticos.
Uma pesquisa da Phocuswright, empresa especializada no mercado de viagens, mostra que 61% das companhias consultadas já testam ou ampliam o uso de IA agêntica. O levantamento ouviu executivos do setor e ajuda a medir a passagem dos experimentos para aplicações capazes de executar tarefas. Entre os participantes, 22% começaram a escalar a tecnologia e 6% já a utilizam em diferentes áreas.
A expressão “indústria de software” descreve uma mudança na infraestrutura do turismo. Sistemas passaram a organizar disponibilidade, preços, preferências, pagamentos e reservas, além de acompanhar o relacionamento com o viajante ao longo da jornada.
Essa camada aproxima segmentos diferentes. Uma hospedagem precisa conversar com canais de distribuição e meios de pagamento. Plataformas de atendimento precisam acessar histórico, reservas e regras comerciais sem obrigar o profissional a alternar entre várias telas.
“O software ganha importância quando conecta a operação. O valor está em fazer as informações circularem com segurança entre atendimento, vendas, gestão e fornecedores, sem criar novas etapas manuais”, explica Bazoti.
A mudança afeta os modelos de negócio. Empresas de turismo contratam plataformas por assinatura, pagam pelo volume processado ou utilizam estruturas tecnológicas com a própria marca. Fornecedores de software também reúnem funções antes dispersas, como CRM, automação, distribuição, pagamentos e análise de dados.
A integração ainda está longe de ser uniforme. Uma pesquisa da Global Business Travel Association, a GBTA, entidade internacional dedicada às viagens corporativas, identificou que apenas 12% dos compradores consultados possuem uma visão consolidada de seus programas em uma única fonte de dados. Muitas operações continuam apoiadas em informações fragmentadas.
A dependência de plataformas aumenta a necessidade de estabilidade, proteção e rastreabilidade. Uma falha de integração pode duplicar registros, ocultar uma alteração ou interromper um pagamento. O uso de IA exige ainda limites claros para decisões automatizadas e validação humana.
“No turismo, eficiência tecnológica precisa vir acompanhada de confiabilidade. Uma automação perde valor quando trabalha com dados incompletos ou sem rastreabilidade”, afirma o executivo.
A transformação também muda a rotina dos profissionais. Atividades repetitivas migram para sistemas automatizados, enquanto as equipes concentram atenção em imprevistos, negociações e relacionamentos. As empresas precisam decidir onde desenvolver tecnologia própria, onde integrar soluções externas e quais processos devem permanecer sob controle humano. O software avança pelos bastidores, enquanto o viajante percebe apenas se a experiência funcionou ou falhou.




