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terça-feira, abril 28, 2026
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Brasil testa metodologias para medir impactos do turismo sobre a fauna de cavernas

Iniciada no Rio Grande do Norte, iniciativa integra ações do PAN Cavernas do Brasil

Com mais de 30 mil cavernas registradas e um potencial estimado para ultrapassar 300 mil, o Brasil tem despertado, cada vez mais, o interesse de turistas em conhecer ambientes subterrâneos. Diante desse cenário de crescente procura, pesquisas vêm sendo desenvolvidas com foco na redução dos impactos do turismo espeleológico. Um exemplo é o trabalho iniciado no Parque Nacional da Furna Feia (RN), que busca testar metodologias de avaliação dos impactos da visitação sobre a fauna de invertebrados e morcegos.

A iniciativa integra o Plano de Ação Nacional para a Conservação do Patrimônio Espeleológico (PAN Cavernas do Brasil) e tem como objetivo subsidiar a definição de áreas que poderão ser abertas ou restritas à visitação, de forma a conciliar o uso público com a conservação sustentável das cavernas turísticas.

Os estudos, que também serão aplicados em Minas Gerais, estado que concentra o maior número de cavernas do país, são conduzidos de forma comparativa, avaliando as metodologias também em cavernas não turísticas. Para isso, são simuladas atividades de visitação em caverna não turística, com a avaliação, in loco, dos impactos gerados.

Segundo o professor e pesquisador do Centro de Estudos em Biologia Subterrânea da Universidade Federal de Lavras (CEBS/UFLA), em Minas Gerais, e articulador dessa ação no PAN Cavernas do Brasil, Marconi Sousa Silva, “as alterações e usos antrópicos frequentes sem o devido plano de manejo em cavernas podem causar um desequilíbrio irreversível. Diversos estudos, tanto no Brasil quanto em outros países, avaliaram os efeitos de alterações antrópicas e constataram mudanças na temperatura, na umidade e na quantidade de CO₂, além do pisoteio e a compactação de sedimentos”, afirmou.

De acordo com o professor, essas alterações provocam estresse na fauna cavernícola, especialmente em invertebrados troglóbios, que existem exclusivamente nesse tipo de ambiente. Além disso, diversos estudos têm constatado a introdução de matéria orgânica estranha às cavernas, como o desenvolvimento de fungos e de biofilmes fotossintéticos associados ao uso de iluminação artificial. Esses processos podem causar danos aos espeleotemas, formações que levam dezenas, e até centenas de anos para se constituírem.

Sobre a metodologia

As principais metodologias atualmente utilizadas para avaliar os impactos da visitação em cavernas combinam análises biológicas e o monitoramento ambiental. A mensuração de parâmetros microclimáticos, como concentração de CO₂, temperatura e umidade, é uma das etapas dessa análise. Esses elementos são bastante sensíveis à presença humana e funcionam como indicadores diretos de alterações no ambiente cavernícola. “Esses dados podem ser obtidos por meio de sensores automáticos, registradores contínuos ou medições pontuais realizadas durante as campanhas de campo”, explicou Marconi.

 

Segundo o pesquisador, além do monitoramento do microclima, são aplicadas técnicas de amostragem padronizada da fauna, com foco na caracterização dos microhabitats e da estrutura física das cavernas. Além disso, são realizadas análises da diversidade de espécies, que permitem identificar mudanças na composição biológica ao longo do tempo ou entre diferentes setores da caverna, auxiliando na detecção de substituições de espécies e na avaliação de possíveis impactos associados à visitação. Também será avaliado, de que forma a estrutura dos microhabitats no piso da caverna, especialmente a granulometria do sedimento, pode atenuar os impactos do pisoteamento, sobretudo para os invertebrados de baixa mobilidade.

O passo a passo da primeira expedição

O analista ambiental e coordenador da Base Avançada do ICMBio/Cecav no Rio Grande do Norte, Diego Bento, explicou que de forma experimental os pesquisadores delimitaram vários pontos amostrais nas áreas visitáveis e em áreas adjacentes. Todos esses pontos foram amostrados antes e após quatro dias de visitações simuladas, quando foram observados a riqueza e abundância de espécies de invertebrados cavernícolas. Também foram coletados dados microclimáticos e outras informações relacionadas aos microhabitats presentes em cada ponto amostral.

As visitações foram realizadas com cerca de 45 pessoas por dia, que percorreram toda a extensão visitável da caverna e retornaram pelo mesmo trajeto, simulando o que seria o impacto de 90 pessoas entrado na caverna pela entrada principal e saindo por uma claraboia próxima ao final da caverna (situação que representaria a capacidade de carga máxima da caverna).

“A hipótese com que trabalhamos é que a visitação faça com que os animais saiam da área visitada e passem para áreas não visitadas, mesmo que esses espaços sejam próximos. Além disso, há a hipótese de que não haverá diminuição da riqueza geral da caverna nem da abundância. O que deve acontecer é uma migração da fauna”, explicou Diego Bento.

De acordo com o analista ambiental, a ideia é verificar se os impactos do turismo ficam dentro do que é considerado ‘aceitável’. “A Furna Feia é uma caverna que ainda não recebe visitação, então estamos conseguindo realizar todo esse trabalho antes da chegada dos turistas. Isso é algo que, na maioria das cavernas do Brasil, não é possível. Geralmente, elas primeiro passam a receber visitação e só depois vêm as pesquisas para tentar regularizar a situação”, explicou Diego.

Hotspots da biodiversidade subterrânea

O Parque Nacional da Furna Feia e a região dos municípios de Felipe Guerra e Governador Dix-Sept Rosado vêm sendo pesquisadas há cerca de 20 anos. De acordo com Diego, a região já é bem conhecida, algumas áreas são consideradas hotspots de biodiversidade subterrânea, e há diversos trabalhos publicados por pesquisadores da UFLA, universidade pioneira nesses estudos na região, do ICMBio/Cecav e da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Do ponto de vista bioespeleológico, é considerada uma das regiões mais importantes da América do Sul.

Sobre o PAN Cavernas do Brasil

O PAN Cavernas do Brasil possui 44 ações, distribuídas em quatro objetivos específicos, com o objetivo geral de prevenir, reduzir e mitigar impactos e danos antrópicos sobre o patrimônio espeleológico brasileiro, suas espécies e ambientes associados, no prazo de cinco anos.

O plano contempla ainda 168 táxons nacionalmente ameaçados de extinção e estabelece diretrizes como objetivos específicos, prazos de execução, formas de implementação, além de mecanismos de supervisão e revisão.

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