Após 182 dias, brasileiro se torna o primeiro do país a completar volta ao mundo solo em monomotor pelos cinco continentes

Expedição reuniu 77 mil quilômetros, 297 horas de voo e passagens por 33 países em uma jornada iniciada e concluída no Ceará

Depois de 182 dias viajando sozinho a bordo de um avião monomotor experimental, Alex Frota, conhecido como Alex Bacana, idealizador do Frotas Pelo Mundo, pousou no Ceará em 12 de setembro e encerrou uma volta ao mundo que começou em 15 de março. A expedição Frotas Pelo Mundo atravessou cinco continentes e levou o piloto por regiões que foram da Groenlândia ao Oriente Médio e à Sibéria, em uma trajetória marcada por condições meteorológicas extremas, problemas mecânicos, dificuldades de navegação e entraves para obter autorizações de voo. O retorno ocorreu no Catuleve, Clube de Aviação Desportiva, em Aquiraz, na Região Metropolitana de Fortaleza.

Administrador de empresas, gestor de recursos e administrador de carteiras credenciado pela CVM, Frota transformou em 2026 um projeto amadurecido durante anos em uma expedição internacional. Apaixonado por aviação desde a infância, tirou o brevê aos 44 anos e passou a construir gradualmente o caminho até a volta ao planeta. Em 2024, fez um voo teste entre Fortaleza e os Estados Unidos, percurso que serviu para colocar à prova a aeronave e a própria preparação para distâncias maiores.

“Naquele voo, todo mundo já achava uma loucura. Quando saí para a volta ao mundo, aquela primeira etapa até os Estados Unidos já não parecia mais um desafio. A perspectiva muda conforme a gente vai vencendo as barreiras”, relata Frota.

Os números ajudam a dimensionar a viagem, mas são os episódios ocorridos entre uma escala e outra que mostram o tamanho do desafio. Durante o percurso, Frota enfrentou chuva intensa sobre a Amazônia, temperaturas de 22 graus negativos na Groenlândia e superiores a 50 graus no Oriente Médio. Na Ásia, a jornada coincidiu com o período de monções e tufões, enquanto a travessia da Sibéria trouxe outro tipo de dificuldade: longas extensões praticamente desabitadas, com poucas cidades, estradas e aeroportos disponíveis.

“Foram voos super desafiadores. Eu já passei por zona de guerra, por problemas de GPS e de navegação, já tive pane elétrica. Voei também sobre oceanos, desertos e lugares extremos como a Groenlândia, onde enfrentei menos 22 graus”, afirma Frota.

Do vazamento de combustível à falha elétrica

A aeronave também colocou o planejamento à prova. Em Melilla, território espanhol no norte da África, Frota chegou ao solo com furos no tanque e combustível vazando. Como não havia combustível disponível no local para o retorno à Europa, precisou preservar parte do que estava sendo perdido e realizar um reparo antes de continuar a viagem.

Mais tarde, uma falha elétrica iniciada na África se agravou durante o voo entre Dubai e a Índia. Segundo o piloto, o problema quase o levou a declarar emergência e buscar uma alternativa de pouso no Paquistão. A falha o acompanhou por cerca de duas semanas até ser solucionada. Já nas etapas finais, uma queda de pressão de combustível durante o voo levou a uma nova revisão da aeronave nos Estados Unidos.

Houve ainda trechos em que os sistemas de navegação deixaram de oferecer a segurança habitual. Em regiões afetadas por conflitos e interferências eletrônicas, Frota relata que o GPS deixou de ser uma referência confiável, situação que o levou a recorrer à radionavegação e, em alguns momentos, a métodos tradicionais baseados em mapa e cronômetro.

“Teve momento em que estava vazando combustível por todo lado. O mau tempo ficou realmente ruim e, em outros trechos, eu olhava para o lado e havia montanha por todo o circuito. É uma viagem que exige muito respeito”, afirma.

Burocracia exigiu adaptação e novas decisões de rota 

As dificuldades não ficaram restritas ao clima ou à aeronave. Frota aponta a burocracia como um dos fatores mais difíceis de administrar durante a expedição justamente porque dependia de decisões externas.

Nas Filipinas, permaneceu por mais de uma semana tentando viabilizar uma escala que permitisse seguir viagem em direção à Rússia. China, Japão, Taiwan e Coreia do Sul estavam entre as possibilidades analisadas. Depois de dias de negociação e do apoio de representações diplomáticas brasileiras, a Coreia do Sul acabou incorporada à rota.

Durante essa etapa, Frota também relata ter cruzado uma região de forte tensão geopolítica, com presença de navios militares e drones, além de enfrentar dificuldades para obter autorização de passagem por determinados espaços aéreos.

“A burocracia era o que mais me apavorava porque eu não tinha controle sobre ela. O clima você acompanha, o avião você prepara, mas uma autorização depende de outras pessoas e de outros países. Essa parte entre as Filipinas e a Rússia foi a mais tensa da viagem para mim”, afirma.

No México, outro impasse regulatório alterou uma parte importante do planejamento. A intenção era seguir dos Estados Unidos pela América Central, percorrer a costa do Pacífico da América do Sul e entrar no Brasil pelo Sul. Frota, porém, permaneceu quatro dias no país sem conseguir autorização para avançar com a aeronave experimental.

A solução foi retornar aos Estados Unidos, contornar o Golfo do México e redesenhar a etapa final da expedição. A América do Sul, que faria parte daquela viagem, acabou sendo retirada do roteiro e poderá ganhar uma expedição própria no futuro.

“A gente conseguiu seguir bem o planejado, mas houve entraves burocráticos, permissões e diversos atrasos. No planejamento geral, eu já tinha previsto isso e deixava, em alguns lugares, bolsões de reserva de dias”, explica.

Um feito que começou muito antes da decolagem

Segundo Frota, a expedição alcançou as duas marcas estabelecidas antes da partida: ele se tornou o primeiro brasileiro a completar sozinho uma volta ao mundo em monomotor passando pelos cinco continentes, enquanto o RV-10 utilizado na viagem tornou-se, segundo o projeto, a primeira aeronave desse modelo a realizar uma circunavegação solo.

Para Frota, uma das percepções deixadas pelos quase seis meses de viagem foi justamente observar como um desafio passa a ser visto de outra forma depois de superado. “O que a gente vai mostrando que é possível passa a ser o novo normal. Só que o perigo existe e continua lá. Não é porque você venceu uma etapa que pode achar que está tudo resolvido e baixar a guarda”, ressalta.

Mais do que estabelecer marcas, Frota diz que atravessar o planeta estava ligado também à vontade de conhecer lugares para além dos cartões postais e das imagens normalmente associadas a cada destino.

“Eu estou dando a volta ao mundo porque quero ver o mundo de verdade, nas pessoas comuns, nas culturas como elas realmente são”, destaca.

O pouso no Ceará encerrou um projeto que nasceu de uma paixão antiga pela aviação e ganhou dimensão internacional. Depois de atravessar cinco continentes, enfrentar temperaturas extremas, problemas técnicos, restrições de navegação e mudanças de rota, Frota voltou ao mesmo lugar de onde havia partido 182 dias antes.

 

Sobre Alex Frota

Alex Frota, conhecido como Alex Frota, é administrador de empresas formado pela Universidade de Fortaleza, com MBA em Investimentos e Private Banking pelo IBMEC. É gestor de recursos e administrador de carteiras credenciado pela CVM, com certificações CGA, CFP® e CEA.

Apaixonado por aviação desde a infância, tirou o brevê aos 44 anos. Aos 53, lidera o Projeto Frotas Pelo Mundo, iniciativa com a qual realizou a primeira volta ao mundo solo, em monomotor, feita por um brasileiro cruzando os cinco continentes.

Alex Frota é mais conhecido como Alex Bacana, apelido que ganhou em referência ao personagem da série Armação Ilimitada.

Sobre o Frotas Pelo Mundo

O Frotas Pelo Mundo nasceu como um diário de viagem e se transformou em um projeto de alcance internacional, com comunidade digital ativa e estrutura de produção dedicada. Concluída em setembro de 2026, a jornada percorreu 77 mil quilômetros ao longo de 182 dias, somou 297 horas de voo e teve pousos em 33 países, atravessando cinco continentes. O projeto contou com cobertura multiplataforma e desdobramentos em educação, cultura, tecnologia e impacto social.

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