Ferramentas passam da recomendação à execução de tarefas, mas integração, segurança e supervisão humana ainda limitam a autonomia.
Escolher um voo, conferir a política de viagens da empresa e concluir uma reserva já pode acontecer dentro da mesma conversa com um assistente de inteligência artificial. A mudança marca uma etapa diferente da popularização dos chatbots. Em vez de apenas responder dúvidas ou sugerir roteiros, os novos agentes recebem um objetivo, consultam sistemas e executam parte do processo.
Bruno Bazoti, fundador e CEO da Larian AI, empresa de tecnologia no ramo do turismo, avalia que a novidade deve ser observada pela integração entre a inteligência artificial e a infraestrutura do setor. Para funcionar, o agente precisa acessar inventários, regras tarifárias, disponibilidade e critérios definidos pela empresa responsável pela reserva.
Um levantamento da Global Business Travel Association, a GBTA, entidade internacional dedicada às viagens corporativas, mostra que 49% dos profissionais de fornecedores e empresas de gestão de viagens e 33% dos compradores já testavam IA autônoma. A pesquisa acompanha organizações que contratam ou administram esses serviços e aponta privacidade, segurança de dados e integração entre as principais preocupações.
A aplicação prática ganhou um exemplo recente. Em agosto de 2026, a FCM Travel anunciou um recurso de reserva conversacional com acesso inicial pelo Microsoft Teams e pelo Slack. A ferramenta interpreta pedidos em linguagem comum, considera políticas corporativas e preferências de rota e apresenta opções dentro dos critérios autorizados.
Esse tipo de operação pertence à chamada IA agêntica, categoria de sistemas capazes de organizar ações para cumprir uma tarefa. Em uma viagem corporativa, o agente pode receber datas, destino e limite de gastos, consultar fontes, comparar opções e encaminhar a emissão. Também pode auxiliar em alterações e cancelamentos, desde que tenha autorização.
“O modelo de inteligência artificial, sozinho, não emite uma passagem. A execução depende de integrações confiáveis, dados atualizados e regras claras sobre o que o agente pode consultar, recomendar ou confirmar. É essa conexão com a operação que transforma uma conversa em uma reserva”, explica Bazoti.
Para as empresas de turismo, o efeito mais imediato aparece na organização da jornada. Informações antes distribuídas entre mensagens, formulários e plataformas podem seguir em um único fluxo. Isso reduz falhas de preenchimento, facilita o cumprimento das políticas do cliente e melhora o registro da decisão. O atendimento humano permanece necessário em itinerários complexos, problemas de documentação e situações que exigem negociação.
A autonomia amplia a responsabilidade sobre eventuais erros. Uma tarifa pode mudar em minutos, uma conexão pode se tornar inviável ou uma regra de bagagem pode ser interpretada de forma incompleta. Com permissão para avançar sem confirmação, uma resposta imprecisa pode gerar cobrança, reserva ou alteração indesejada.
“A empresa precisa definir limites de autorização, manter o histórico das ações e estabelecer em quais momentos a validação humana será obrigatória. Quanto maior o impacto financeiro da decisão, mais importante é garantir rastreabilidade e possibilidade de reversão”, afirma o executivo.
A adoção tende a começar por tarefas delimitadas, como pesquisa, seleção dentro da política e preparação da reserva para aprovação. Antes de ampliar a autonomia, as empresas precisam medir precisão, tempo de resposta e taxa de correção. O agente pode encurtar o caminho até a emissão, mas sua eficiência continuará ligada à qualidade dos sistemas e dos dados aos quais estiver conectado.




