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sexta-feira, março 6, 2026
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Travel techs brasileiras disputam o futuro do turismo ainda preso ao passado operacional

Por Bruno Henrique Nascimento Bazoti, especialista em automação e inteligência artificial*

O setor de turismo no Brasil atravessa um momento estratégico: ao mesmo tempo em que a demanda cresce, o consumo se digitaliza e o mercado se mostra mais receptivo a soluções tecnológicas, ainda predominam estruturas operacionais fragmentadas, processos manuais e baixa integração entre sistemas.

Esse contraste evidencia os desafios e o potencial das travel techs brasileiras, já que buscar eficiência, reduzir custos e oferecer jornadas mais fluidas deixou de ser diferencial para se tornar requisito competitivo, abrindo espaço para empresas especializadas redesenharem a lógica operacional de agências e operadoras com base em automação, integração e uso inteligente de dados.

Com peso relevante na economia nacional, a atividade turística reforça a urgência dessa transformação. De acordo com o Conselho Mundial de Viagens e Turismo (WTTC), o setor respondeu por cerca de 7,7% do PIB brasileiro em 2024 e sustentou aproximadamente 8 milhões de empregos diretos e indiretos.

Apesar dessa representatividade, muitas agências ainda operam com sistemas desconectados para vendas, emissão, controle financeiro e atendimento, o que gera retrabalho, amplia o risco de erros e limita a capacidade de escala. Assim, crescer passa a significar, muitas vezes, ampliar equipes e custos fixos, pressionando margens já estreitas e reduzindo a competitividade em um ambiente cada vez mais orientado pela eficiência e pela digitalização.

Diante desse ambiente, as travel techs deixam de ser complemento e passam a ocupar posição estrutural.

Ao integrar canais de venda, automatizar a busca e a emissão de passagens, aplicar regras tarifárias de forma automática, centralizar o atendimento em múltiplos canais e utilizar dados para orientar decisões comerciais, essas empresas redefinem a equação econômica do setor.

Estudos da McKinsey indicam que a automação pode reduzir despesas operacionais em até 30% em segmentos intensivos em serviços. No turismo, esse ganho representa não apenas economia, mas maior capacidade de reinvestimento em experiência, personalização e expansão. Converter complexidade operacional em inteligência estratégica passa a ser o principal vetor de crescimento.

Entretanto, os obstáculos vão além da tecnologia. Persistem barreiras culturais e estruturais que retardam a adoção de soluções mais avançadas, especialmente porque parte das empresas ainda enxerga tecnologia como gasto pontual, e não como investimento estratégico.

Ao mesmo tempo, cresce a pressão por personalização, atendimento omnichannel e uso inteligente de dados para antecipar demandas e otimizar ofertas. Recursos como inteligência artificial para recomendação de rotas, automação de atendimento com assistentes virtuais e análise preditiva de comportamento apontam para um modelo orientado por integração e inteligência. Superar a inércia dos formatos tradicionais exige capacitação contínua, revisão de processos e, sobretudo, mudança de mentalidade na gestão.

O comportamento do consumidor consolida essa tendência. De acordo com levantamento do Google Travel, mais de 70% dos viajantes esperam respostas quase imediatas em processos de compra ou alteração.

Atender a essa expectativa sem integração sistêmica e automação torna-se operacionalmente inviável, sobretudo em estruturas baseadas em tarefas manuais e sistemas desconectados. A tecnologia, portanto, reposiciona o agente como consultor estratégico, ao liberá-lo de atividades repetitivas e operacionais e permitir maior foco em negociação, personalização de roteiros e gestão de situações complexas, elevando o valor agregado do atendimento.

Demanda crescente, diversidade de oferta e capacidade empreendedora criam terreno fértil para inovação no turismo brasileiro. O diferencial competitivo das próximas décadas estará na capacidade de transformar tecnologia em estratégia de negócio, e não apenas em ferramenta operacional.

Para as travel techs nacionais, o desafio é desenvolver soluções alinhadas à realidade local, com escalabilidade e inteligência aplicada às especificidades do setor. A adoção tecnológica, portanto, deixa de ser uma escolha opcional e passa a representar condição essencial para competir, ganhar eficiência e evoluir em um mercado cada vez mais orientado por dados, integração e performance.

*Bruno Bazotti é fundador e CEO da Larian AI, onde atua na transformação do setor de turismo por meio de soluções de inteligência artificial voltadas à automação e eficiência operacional. Com mais de 12 anos de experiência em tecnologia, incluindo passagens por empresas como IBM, Intuit e TEKsystems, é especialista em estratégia de dados, automação e desenvolvimento de produtos baseados em IA.

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