Como o jeito Disney de encantar clientes inspirou a criação do Kinder Park

Por Daiana Arnold palestrante, consultora criativa, mentora de negócios e estrategista de comportamento

Uma das coisas que mais me marcou na minha recente experiência na Disney foi perceber que o encantamento não está necessariamente nas grandes atrações, mas na soma de pequenos detalhes que fazem uma pessoa se sentir parte de uma história. A Disney não cria apenas lugares para visitar, ela cria experiências que envolvem os sentidos, despertam emoções e permanecem na memória. Foi essa percepção que reforçou uma convicção que venho desenvolvendo ao longo da minha trajetória e que também orientou meu trabalho de concepção e direção criativa no Kinder Park, em Igrejinha, no Sul do Brasil, em um mundo cada vez mais digital, automatizado e acelerado, a próxima inovação será fazer as pessoas se sentirem humanas novamente.

Não se trata de copiar a Disney, mas de compreender o princípio por trás de sua capacidade de encantar. O que me interessa é entender como uma narrativa pode ocupar todos os pontos de contato de uma experiência e fazer com que arquitetura, paisagismo, música, personagens, figurinos, circulação, gastronomia e atendimento deixem de ser elementos independentes para pertencer a um mesmo universo. Foi a partir dessa lógica que começamos a pensar o Kinder Park. Antes de perguntar o que iríamos criar, a pergunta foi outra: o que queremos fazer as pessoas sentirem, viverem e levarem consigo?

Essa mudança de perspectiva transforma completamente um projeto. O objetivo deixa de ser simplesmente um parque com brinquedos e passa a ser uma experiência capaz de aproximar gerações. No Kinder Park, eu queria que a criança encontrasse fantasia, que o adolescente encontrasse aventura, que o adulto pudesse reencontrar a própria infância e que avós e netos encontrassem referências capazes de aproximá-los. O verdadeiro produto, nesse sentido, não é apenas a atração. É o tempo compartilhado entre pessoas que muitas vezes têm rotinas completamente diferentes.

Quando a cultura deixa de ser cenário e vira história

Outro desafio importante era trabalhar a identidade alemã de Igrejinha sem transformar a cultura local em uma caricatura. A região possui uma forte herança da imigração alemã e tradições preservadas, como a Oktoberfest, mas eu não queria simplesmente reproduzir elementos visuais e dizer que aquele era um parque alemão. Precisávamos encontrar uma história humana dentro daquela cultura. Foi assim que a imigração passou a ser o pano de fundo para uma narrativa sobre sonhos, coragem, família, amizade, esperança, medo, recomeços e pertencimento.

Nasceu então a Jornada da Catarina. A personagem parte de Bremen, na Alemanha, enfrenta desafios, deixa para trás referências conhecidas e chega ao Brasil, onde constrói novos vínculos. A história permite que diferentes gerações encontrem diferentes significados. Para uma criança, é uma aventura, já para um adulto, pode ser uma história sobre mudança, família e pertencimento. Até detalhes da história real do empreendimento foram incorporados à narrativa. O proprietário do parque foi sapateiro durante toda a vida e, por isso, o avô de Catarina, Max, também é sapateiro. São conexões como essa que fazem uma temática deixar de ser apenas decoração e passar a ter identidade.

A partir da narrativa, o próprio espaço começou a contar a história. A Cidadela estabelece uma relação com Bremen, o navio representa a travessia dos imigrantes e o trem transforma o deslocamento em parte da jornada. O visitante não simplesmente circula entre atrações, ele percorre diferentes capítulos daquele universo. No Imaginário do Joaquim, por exemplo, dinossauros e um gorila gigante, que poderiam parecer elementos desconectados, foram incorporados à narrativa por meio da imaginação do personagem. O parque também conta com um grande elemento de destaque, o maior escorregador inflável do mundo, mas a intenção sempre foi que os superlativos fossem parte de uma experiência maior, e não o único motivo para uma visita.

O encantamento está naquilo que o visitante sente

A mesma preocupação esteve presente nos elementos sensoriais. Participei da curadoria da playlist do parque pensando na conexão entre gerações e reunindo referências de diferentes épocas e estilos. A música ajuda a construir atmosfera, mas também cria pontes afetivas entre crianças, pais e avós. A Polonaise, tradição germânica, ganhou uma dimensão participativa: Catarina e Joaquim iniciam a dança e os visitantes são convidados a entrar. Nesse momento, a cultura deixa de ser algo que se observa e passa a ser algo que se vive.

Os personagens também foram desenvolvidos para ter personalidade e função dentro da narrativa, e não apenas para atuar como mascotes. Catarina representa curiosidade, sensibilidade e coragem, Max carrega memória, tradição e afeto e Joaquim traduz imaginação e criatividade, já as demais personagens ajudam a representar amizade, alegria, acolhimento, expressão e também os conflitos que fazem parte de qualquer jornada. Os figurinos e a própria equipe foram incorporados a essa construção, porque uma experiência coerente não pode terminar na arquitetura. As pessoas também fazem parte do ambiente.

Um dos momentos que considero mais importantes acontece junto à árvore, espaço ligado às memórias de Catarina e do avô Max. É ali que, ao final do dia, Catarina e Joaquim retomam a história em uma apresentação acompanhada pelo jingle do parque. Catarina segura seu coração azul e faz uma oração pedindo dias melhores e o retorno do avô. A narrativa, que começou na chegada ao parque, encontra ali seu fechamento. Para mim, esse tipo de encerramento é fundamental e mostra que uma experiência precisa ter começo, desenvolvimento e conclusão para que possa deixar uma sensação de completude.

Mas o encantamento não precisa terminar quando o visitante vai embora. No Kinder Park, a história continua na loja, com o livro de Catarina, atividades e o coração azul que a personagem recebe do avô. O objeto deixa de ser apenas um souvenir e passa a representar uma memória que pode acompanhar a criança em casa. As festas de aniversário também permitem que as famílias retornem ao universo do parque em momentos especiais, enquanto o coração azul continua presente nas redes sociais como símbolo de conexão com quem compartilha a experiência.

Quando experiência e negócio passam a contar a mesma história

É nesse ponto que acredito que experiência e estratégia de negócio se encontram. Criar um ambiente memorável não é apenas uma decisão estética. Uma experiência bem construída pode aumentar percepção de valor, desejo de visita, permanência, retorno, compartilhamento e recomendação. Segundo dados do próprio empreendimento, no primeiro trimestre o Kinder Park alcançou o dobro do faturamento e do público visitante inicialmente projetados, superando as expectativas mesmo sem um trabalho agressivo de marketing. O crescimento por indicação mostra algo que considero especialmente poderoso: quando uma experiência realmente toca as pessoas, elas passam a contar a história da marca por vontade própria.

O Kinder Park representa, para mim, uma aplicação concreta de uma ideia que está na base do meu trabalho e do Método CHA, Cultura Humana nos Ambientes, que criei para conectar comportamento, cultura e espaço. Meu olhar parte das pessoas antes de chegar à estética. Procuro entender o que desperta curiosidade, pertencimento, conexão, emoção e memória e, a partir disso, transformar essas descobertas em conceitos, narrativas e ambientes.

Foi isso que busquei fazer no Kinder Park. Não criar apenas um parque temático, mas um universo com identidade própria, não apresentar apenas a cultura alemã, mas transformá-la em uma história que pudesse ser vivida, não oferecer apenas atrações, mas criar oportunidades para que famílias compartilhassem tempo e construíssem memórias.

Acredito que esse é um dos grandes aprendizados que podemos trazer do jeito Disney de encantar clientes, as pessoas podem até esquecer detalhes de uma experiência, mas dificilmente esquecem como um lugar as fez sentir. Quando ambiente, cultura e experiência estão alinhados, o espaço deixa de ser apenas um lugar e passa a fazer parte da história de quem esteve ali. E talvez seja esse o verdadeiro significado de encantar: criar algo que continue existindo na memória mesmo depois que a visita termina.

Daiana Arnold é palestrante, consultora criativa, mentora de negócios e estrategista de comportamento. Criadora do Método CHA, Cultura Humana nos Ambientes, atua na interseção entre storytelling, comportamento, cultura, design e experiência, desenvolvendo conceitos que transformam ambientes em experiências mais humanas e memoráveis.

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