Quanto custa uma negativa de visto? Prejuízo pode aumentar em processos de trabalho, carreira e investimento nos EUA

Recusa de visto de turismo já atinge quase 15% dos brasileiros, mas impacto pode ser maior em categorias para profissionais, empresários e investidores

Quase 15% dos pedidos de vistos americanos de turismo e negócios de brasileiros terminaram em recusa no ano fiscal de 2025, segundo dados do Departamento de Estado dos Estados Unidos. A taxa ajustada de 14,87% ajuda a dimensionar a frequência das negativas, mas representa apenas uma parte de um problema que pode se tornar muito mais caro quando o processo envolve carreira, mudança de país, abertura de empresa ou investimento nos Estados Unidos.

Em categorias procuradas por profissionais qualificados, executivos, empresários e investidores, como EB-1, EB-2 NIW, EB-5, L-1 e O-1, uma decisão desfavorável pode atingir despesas com documentação, traduções, avaliações acadêmicas, planos de negócios, estrutura empresarial, honorários e investimentos realizados ao longo do processo.

Daniel Toledo, advogado especializado em Direito Internacional, fundador da Toledo Advogados e Associados, afirma que o custo de uma negativa precisa ser calculado de acordo com o projeto que existe por trás da solicitação.

“Em um visto de turismo, normalmente estamos falando de uma viagem que pode precisar ser adiada. Quando entramos em processos profissionais, empresariais ou de residência permanente, a dimensão muda. Pode existir uma carreira sendo reposicionada, uma empresa sendo aberta, patrimônio investido e uma família planejando uma mudança. Uma negativa, nesse contexto, pode custar muito mais do que a taxa paga ao governo”, afirma Toledo.

Turismo tem taxa de recusa de 14,87% entre brasileiros

Segundo o levantamento Nonimmigrant B Visa Adjusted Refusal Rates by Nationality, publicado pelo Departamento de Estado, a taxa ajustada de recusa dos vistos B para cidadãos brasileiros foi de 14,87% no ano fiscal de 2025, ante 15,48% em 2024.

Em números globais, o volume também chama atenção. No ano fiscal de 2024, foram emitidos cerca de 6,5 milhões de vistos B1/B2, enquanto aproximadamente 2,5 milhões de solicitações terminaram o período em situação de recusa.

O dado, porém, não deve ser utilizado para estimar automaticamente as chances de candidatos de outras categorias. Cada tipo de visto ou benefício migratório possui requisitos e procedimentos próprios.

“É justamente aí que surge um erro frequente: achar que imigração funciona da mesma forma para todos. O raciocínio utilizado para um turista não é o mesmo de um executivo transferido por uma empresa ou de um profissional que busca residência permanente com base na carreira”, explica Toledo.

Quanto custa uma negativa em um processo profissional?

Em categorias baseadas em carreira, o investimento começa muito antes de uma eventual decisão do governo americano.

O candidato pode precisar reunir diplomas, certificados, cartas profissionais, publicações, evidências de reconhecimento, documentos empresariais e outros elementos destinados a demonstrar que cumpre os requisitos específicos da categoria.

No EB-1, por exemplo, existem diferentes subcategorias destinadas a perfis específicos, entre eles pessoas com habilidade extraordinária, determinados professores e pesquisadores e certos executivos e gerentes multinacionais.

Já o EB-2 contempla profissionais com grau avançado ou pessoas com habilidade excepcional. Em determinados casos, o pedido pode envolver o National Interest Waiver (NIW), que dispensa requisitos normalmente relacionados a oferta de trabalho e certificação laboral quando os critérios jurídicos aplicáveis são atendidos.

O-1, por sua vez, é uma categoria temporária destinada a pessoas que conseguem demonstrar habilidade extraordinária ou realização extraordinária nos campos previstos pela legislação.

“Esses processos não deveriam começar com a pergunta ‘qual visto eu quero?’. Deveriam começar com ‘qual categoria corresponde ao meu histórico e quais provas eu tenho para demonstrar isso?’. Quando a estratégia é construída ao contrário, o candidato pode gastar meses e dinheiro tentando se encaixar em uma categoria para a qual ainda não possui sustentação documental”, afirma Toledo.

No EB-5, negativa pode envolver um projeto de investimento

Quando o processo está ligado a capital, o risco financeiro ganha outra dimensão.

O programa EB-5 permite que investidores elegíveis busquem residência permanente por meio de investimento qualificado nos Estados Unidos, desde que sejam cumpridos os requisitos previstos pelo programa, entre eles os relacionados à criação de empregos.

Nesse cenário, a análise migratória convive com decisões financeiras e empresariais.

Toledo já destacou anteriormente que investimentos vinculados ao EB-5 exigem avaliação do projeto, da estrutura e da capacidade de atender aos requisitos migratórios, inclusive aqueles relacionados à geração de empregos.

“Em um processo de investimento, não basta perguntar se o candidato tem dinheiro para aplicar. É necessário entender o projeto, a origem dos recursos, a documentação e os requisitos migratórios. O custo de um erro pode ultrapassar em muito as taxas do processo”, afirma.

L-1 exige que empresa e estratégia migratória conversem

O mesmo princípio vale para empresários que utilizam o L-1 em estratégias de expansão para os Estados Unidos.

A categoria permite, quando os requisitos são cumpridos, a transferência de determinados executivos, gerentes ou profissionais com conhecimento especializado entre empresas relacionadas.

Nesse tipo de projeto, a abertura ou expansão da operação americana não deveria ser tratada de forma desconectada da estratégia migratória.

“Um empresário pode abrir empresa, contratar serviços, assumir aluguel e começar a montar uma operação nos Estados Unidos. Se só depois descobrir que a estrutura criada não atende ao que será necessário demonstrar no processo migratório, o prejuízo já começou antes de qualquer decisão do governo”, diz Toledo.

Onde começam as negativas?

Embora cada categoria tenha requisitos diferentes, Toledo aponta um problema recorrente: iniciar o processo pela categoria desejada, e não pela análise do candidato.

No visto de turismo, o erro pode estar na incompatibilidade entre a finalidade declarada e as circunstâncias apresentadas.

Em categorias profissionais, a fragilidade pode surgir quando a documentação não demonstra suficientemente os critérios exigidos.

Em processos empresariais, pode haver incompatibilidade entre a estrutura do negócio e aquilo que precisa ser comprovado.

Nos investimentos, o problema pode envolver desde a estrutura da operação até a documentação sobre os recursos.

“Não existe um visto melhor de forma abstrata. Existe uma categoria adequada ou inadequada para determinado caso. O primeiro trabalho deveria ser verificar elegibilidade, riscos e documentação antes de começar a gastar com toda a estrutura do processo”, afirma.

RFE não significa necessariamente negativa

Outro ponto importante para profissionais, empresários e investidores é diferenciar uma decisão desfavorável de um pedido adicional de evidências.

Em processos analisados pelo Serviço de Cidadania e Imigração dos Estados Unidos (USCIS), o órgão pode emitir um Request for Evidence (RFE) quando entende que precisa de documentação ou informações adicionais antes de decidir.

O recebimento de um RFE, portanto, não equivale automaticamente a uma negativa.

“O RFE precisa ser tratado com seriedade, mas não como se o processo já estivesse perdido. É o momento de entender exatamente o que o agente questionou e responder com documentação compatível com aquilo que está sendo solicitado”, explica Toledo.

A própria etapa posterior a uma aprovação inicial também exige atenção. Em processos de residência permanente, a aprovação de uma petição pode ser seguida por outras fases, como processamento consular ou, quando juridicamente aplicável, ajuste de status.

É possível corrigir uma negativa?

Em determinados casos, sim, mas não existe uma resposta única.

A possibilidade depende da categoria, do órgão responsável pela decisão e do fundamento apresentado.

Uma deficiência documental pode ter tratamento diferente de uma conclusão de que o candidato não demonstrou os requisitos da categoria. Questões de inadmissibilidade, fraude ou falsa declaração também possuem consequências próprias.

Por isso, Toledo considera inadequada a estratégia de simplesmente “tentar de novo” sem revisar o processo anterior.

“Depois de uma negativa, o primeiro trabalho é fazer uma espécie de autópsia do processo. O que foi apresentado? O que o governo questionou? O problema estava na categoria, nas provas ou em alguma informação? Sem responder a essas perguntas, reaplicar pode significar apenas repetir o erro”, afirma.

Trocar de visto depois da negativa nem sempre é solução

Outro comportamento que exige cautela é migrar imediatamente para outra categoria depois de receber uma decisão desfavorável.

Se um candidato não conseguiu demonstrar os requisitos de um processo, isso não significa que automaticamente se enquadre em outro.

“Não faz sentido transformar imigração em tentativa e erro. Recebeu negativa no EB-2 e tenta EB-1; não deu certo, tenta outra categoria. Cada processo deixa documentação e informações. A estratégia precisa partir da realidade profissional e migratória daquela pessoa”, diz Toledo.

Como diminuir o risco antes de aplicar

Nenhum profissional pode garantir que um processo será aprovado. A decisão pertence às autoridades americanas.

Ainda assim, segundo Toledo, algumas medidas reduzem erros evitáveis.

Antes do protocolo, é necessário avaliar se o candidato realmente cumpre os critérios da categoria, revisar o histórico migratório, identificar fragilidades e organizar documentos capazes de comprovar as alegações apresentadas.

Em processos empresariais ou de investimento, o planejamento deve ocorrer antes de comprometer valores relevantes com uma estrutura baseada em determinada estratégia migratória.

Também é importante saber quem está prestando a orientação jurídica. Toledo já alertou para falsas consultorias e para o risco de orientações inadequadas em processos de imigração.

“Uma análise responsável não promete aprovação. Ela mostra ao cliente onde o caso é forte, onde existem riscos e o que precisa ser construído antes de protocolar. Às vezes, a melhor orientação é justamente não aplicar naquele momento”, afirma.

O que fazer depois de uma negativa

Independentemente da categoria, Toledo recomenda cinco providências antes de iniciar outro processo:

  1. Identificar o fundamento da decisão. É necessário entender por que o pedido não avançou.
  2. Reconstruir o processo anterior. Formulários, petições, documentos, evidências e comunicações devem ser revisados.
  3. Separar problema documental de problema de elegibilidade. Acrescentar documentos não resolve necessariamente um caso em que o candidato não atende aos critérios jurídicos.
  4. Avaliar se existe possibilidade de correção. Dependendo do processo, podem existir medidas diferentes, inclusive nova solicitação, recurso ou outras alternativas previstas nas regras aplicáveis.
  5. Não iniciar outra categoria por impulso. Uma nova estratégia precisa ser compatível com o histórico e com as qualificações reais do candidato.

Afinal, quanto custa uma negativa?

Não existe um único número.

Para um turista, pode significar a taxa e o adiamento de uma viagem. Para um profissional, pode representar meses de preparação e uma oportunidade de carreira. Para um empresário, pode envolver uma estrutura montada nos Estados Unidos. Para um investidor, pode haver patrimônio relevante associado ao projeto.

É justamente por isso que, segundo Toledo, o cálculo deveria começar antes do protocolo.

“Quanto mais complexo é o projeto migratório, maior é o custo de improvisar. Em processos de carreira, negócios e investimento, não estamos falando apenas de conseguir um visto. Estamos falando de decisões que podem envolver patrimônio, empresa, profissão e a mudança de uma família. O objetivo do planejamento não é garantir aprovação, porque ninguém pode fazer isso. É evitar que erros previsíveis transformem uma negativa em um prejuízo muito maior”, conclui Toledo.

Fonte de pesquisa: FY25.pdf

Sobre Daniel Toledo

Daniel Toledo é advogado da Toledo e Advogados Associados especializado em Direito Internacional, consultor de negócios internacionais, palestrante e sócio da LeeToledo PLLC. Toledo também possui um canal no YouTube com mais de 1 milhão de seguidores com dicas para quem deseja morar, trabalhar ou empreender internacionalmente. Ele também é membro efetivo da Comissão de Relações Internacionais da OAB Santos, professor honorário da Universidade Oxford – Reino Unido, consultor em protocolos diplomáticos do Instituto Americano de Diplomacia e Direitos Humanos USIDHR.

Para mais informações, acesse o site.

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Sobre a Toledo e Advogados Associados

O escritório Toledo e Advogados Associados é especializado em direito internacional, imigração, investimentos e negócios internacionais. Atua há mais de 20 anos com foco na orientação de indivíduos e empresas em seus processos.

Cada caso é analisado em detalhes, e elaborado de forma eficaz, através de um time de profissionais especializados. Para melhor atender aos clientes, a empresa disponibiliza unidades em São Paulo, Santos e Houston.

A equipe é composta por advogados, parceiros internacionais, economistas e contadores no Brasil, Estados Unidos e Portugal que ajudam a alcançar o objetivo dos clientes atendidos.

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