Depois de uma década em que a taxa de recusa de vistos americanos para brasileiros chegou a ficar próxima de 3%, obter autorização para viajar aos Estados Unidos se tornou um processo mais seletivo.
Em 2025, 14,87% dos pedidos de visto de turismo e negócios feitos por brasileiros foram recusados, segundo dados do Departamento de Estado americano reunidos pela consultoria Viaggi Vistos.
É o segundo maior patamar da série histórica desde 2006, atrás apenas do período excepcional da pandemia.
O número significa que aproximadamente um em cada sete pedidos terminou em negativa na métrica utilizada pelo governo americano. Mais do que uma oscilação anual, a série mostra uma mudança de patamar. A taxa, que chegou a apenas 3,2% em 2012 e 2014, permaneceu acima de 10% em todos os anos desde 2017. Na média dos 20 anos analisados, o índice brasileiro foi de 10,7%.
A virada aconteceu em 2016, quando a recusa saltou de 5,36% para 16,7% em apenas um ano, em meio à recessão e à forte desvalorização do real. O levantamento relaciona a mudança ao cenário econômico brasileiro, já que renda, estabilidade financeira e vínculos com o país de origem podem pesar na avaliação consular sobre o risco de permanência irregular. A própria Viaggi, porém, ressalta que não há confirmação oficial do Departamento de Estado de que a crise econômica tenha causado o aumento.
Para Fabiano Rocha, CEO e fundador da Jumpstart, a evolução dos números não indica necessariamente uma política mais restritiva aos brasileiros, mas uma análise que exige cada vez mais coerência entre o perfil do solicitante e o visto pretendido.
“O que os números mostram é uma mudança no nível de exigência, e não necessariamente uma mudança de política contra brasileiros. O consulado avalia o risco migratório a partir do conjunto do perfil do solicitante. Quanto mais consistente for a demonstração de vínculos profissionais, financeiros e pessoais com o Brasil, mais sólida tende a ser a aplicação”, afirma.
A pandemia levou o indicador ao ponto mais alto da série. Em 2020, 23,16% dos pedidos foram recusados, em um período marcado também pelo fechamento temporário de consulados e pelas restrições internacionais de viagem.
O índice recuou nos anos seguintes, mas não voltou ao nível observado antes da crise brasileira. Entre 2021 e 2025, oscilou de 11,94% a 15,48%, encerrando 2025 em 14,87%.
O dado também precisa ser colocado em perspectiva. A taxa brasileira está muito abaixo da média mundial calculada pelo Departamento de Estado: 34,3% em 2025. Ainda assim, o Brasil está distante do patamar necessário para entrar no Visa Waiver Program, que permite viagens aos EUA sem visto de turismo e exige, entre outros critérios, uma taxa de recusa inferior a 3%. O Brasil chegou perto desse nível em 2012 e 2014, mas nunca atingiu o requisito.
Para quem solicita o visto, a evolução da série reforça que a análise consular não pode ser reduzida à capacidade de pagar pela viagem. A avaliação considera o conjunto da situação do candidato e, em especial, a probabilidade de que ele retorne ao Brasil. Em um cenário de maior seletividade, comprovar vínculos profissionais, financeiros e pessoais consistentes com o país de origem tende a ganhar ainda mais peso.
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