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quinta-feira, março 19, 2026
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Por que a inteligência artificial virou uma peça central nas viagens corporativas

*Por Silvio Abade Jr.

O setor de viagens corporativas voltou a crescer no Brasil. Segundo o Levantamento de Viagens Corporativas realizado pela Fecomercio em parceria com a Alagev, o segmento movimentou R$ 135,4 bilhões até novembro de 2025, um recorde que confirma a retomada do turismo de negócios e a reativação da economia.

O que chama menos atenção, no entanto, é a forma como grande parte desse volume ainda é administrada dentro das empresas.

Há um descompasso evidente entre crescimento financeiro e maturidade de gestão. Enquanto o setor avança em faturamento, muitas organizações continuam operando com processos fragmentados, controles posteriores ao gasto e baixa integração entre sistemas. A despesa nasce digital, mas o controle segue analógico, dependente de planilhas paralelas, conferência manual de recibos e cruzamentos feitos depois que o dinheiro já saiu do caixa.

Em um cenário de custos pressionados, como mostra a alta de até 12,7% nas passagens aéreas nos últimos meses de 2025, segundo o IBGE, essa lógica deixa de ser apenas ineficiente e passa a ser arriscada. A falta de visibilidade em tempo real compromete a previsibilidade orçamentária, reduz o poder de negociação e transforma a gestão em um exercício de correção, não de antecipação.

Além disso, existe ainda um custo menos mensurável, mas igualmente relevante, que é o tempo das equipes. Profissionais qualificados seguem dedicando horas a tarefas operacionais porque os sistemas não conversam entre si. Conferem recibos, ajustam inconsistências, revisam aprovações sequenciais, quando poderiam estar analisando dados, negociando contratos ou revisando políticas com base em evidências concretas.

É nesse ponto que a inteligência artificial (IA) deixa de ser tendência e se torna infraestrutura. Chatbots e copilotos de IA conseguem orientar colaboradores sobre políticas de viagem, sugerir rotas mais econômicas, comparar fornecedores e até automatizar processos de aprovação em tempo real. Ferramentas como o Joule, assistente de IA da SAP, começam a mostrar como a interação conversacional pode simplificar tarefas que antes exigiam múltiplos sistemas e etapas manuais.

Quando integrada à gestão de viagens, a IA altera a lógica do processo ao capturar o dado na origem, validar automaticamente políticas internas, identificar padrões de consumo e sinalizar desvios antes que se transformem em problema. O controle deixa de ser retrospectivo e passa a ser preventivo, o que muda completamente a dinâmica da área financeira.

Com informações consolidadas e analisadas em tempo real, a empresa ganha capacidade de simular cenários, ajustar parâmetros de gastos, entender comportamento por área ou projeto e renegociar fornecedores com base em dados estruturados. A tecnologia não substitui o julgamento humano, mas amplia sua capacidade analítica e libera energia para decisões estratégicas.

O impacto também aparece na experiência de quem viaja. Sistemas inteligentes reconhecem padrões, preenchem automaticamente informações recorrentes, reduzem fricção no processo de prestação de contas e encurtam fluxos de aprovação. O colaborador ganha tempo e clareza, enquanto a organização ganha governança e transparência.

Observo diariamente que as empresas que já adotaram modelos integrados conseguem uma redução relevante nas despesas relacionadas a viagens, mas o benefício mais consistente é a previsibilidade. Saber onde se gasta, por que se gasta e como ajustar antes que o custo comprometa margens cria uma nova camada de maturidade operacional.

O desafio maior não está na tecnologia disponível, mas na mudança de mentalidade. Durante anos, viagens corporativas foram tratadas como item administrativo, com foco na autorização do deslocamento e na conferência posterior dos gastos. A inteligência entrava no fechamento do mês, quando as decisões já não podiam mais ser alteradas.

Em um ambiente de maior rigor orçamentário e pressão por eficiência, essa abordagem se mostra insuficiente. A inteligência artificial permite que a gestão deixe de ser um processo burocrático e se torne uma ferramenta estratégica, conectando dados, comportamento e decisão em um fluxo contínuo.

O crescimento do setor é um sinal positivo da economia, mas crescimento sem inteligência integrada amplia complexidade e exposição a riscos. A questão central não é apenas quanto a empresa investe em viagens, mas como ela transforma esse investimento em informação qualificada, capacidade preditiva e vantagem competitiva.

No fim, maturidade na gestão de viagens corporativas não será medida pelo volume de deslocamentos, mas pela qualidade da inteligência aplicada a cada decisão. E cada vez mais essa inteligência será artificial, ampliando o potencial humano dentro das organizações em vez de substituí-lo.

*Silvio Abade Jr. é CEO da KSE Brasil

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