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sábado, março 7, 2026
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Mulheres estão redesenhando o turismo brasileiro, da decisão de viagens à liderança em negócios

Recordes no setor se relacionam com o avanço da gestão feminina como consumidoras e empreendedoras

O Ministério do Turismo lançou, no dia 5 de março, o “Guia para Mulheres que Viajam Sozinhas”, uma publicação que aponta para as mudanças de um setor em transformação. O movimento acompanha um aquecimento histórico: em 2025, os aeroportos brasileiros registraram o recorde de 129,6 milhões de passageiros, segundo dados divulgados pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), demonstrando o apetite do público por novas experiências.

Mas os números também revelam uma mudança de comando silenciosa e poderosa no setor. Dados da UN Tourism, agência das Nações Unidas responsável pela promoção do turismo responsável, sustentável e universalmente acessível, mostram que as mulheres influenciam ou decidem mais de 70% das escolhas relacionadas a viagens no mundo. No Brasil, essa força transbordou para a oferta: cerca de 57% dos negócios turísticos têm mulheres à frente, segundo o IBGE.

O crescimento acompanha uma mudança estrutural na economia, com o Sebrae registrando 10,4 milhões de mulheres donas de negócios no país, outro recorde.

O novo mapa do desejo

Os números mostram que, enquanto o interesse geral por voos nacionais ainda se concentra no eixo Sudeste (São Paulo e Rio de Janeiro), o público feminino está redesenhando o mapa das buscas. Quando o recorte considera apenas as mulheres, os estados do Norte e Nordeste passam a concentrar maior interesse, especialmente em destinos associados à natureza, cultura local e experiências de descanso.

Esse protagonismo reflete prioridades pessoais profundas. Um levantamento do Think Olga, em parceria com o projeto “Sonhe como uma garota”, ouviu 1.080 brasileiras e confirmou: em todas as faixas etárias, viajar é o principal desejo. O sonho é compartilhado por 67% das mulheres entre 18 e 29 anos e por cerca de 59% daquelas acima dos 30 anos.

Do “jipe atolado” à gestão de excelência

A história de Adriane Brocker Boeira, fundadora da Brocker Turismo, ilustra como essa vontade de desbravar o país se transforma em império econômico. Neta de colonos alemães, Adriane cresceu inspirada pela avó, que percorria as trilhas com um facão na mão e um saco de pinhão nas costas. “O apelido dela sempre foi a Gralha Azul… ao esconder o pinhão, ela esquece e ali nasce uma araucária”, recorda.

Em 1995, aos 19 anos, Adriane e sua prima abriram a agência para explorar o ecoturismo em Canela (RS). “A gente comprou um jipe, fazia trekking lá das cascatas… Só que a estrada era muito ruim na época. A gente atolava o jipe nas trilhas e ninguém queria pagar na época para andar no mato”, conta. Após décadas de expansão e um estágio na Disney em 2000, ela hoje retorna às origens com projetos no Vale da Lageana. “Hoje vemos cada vez mais mulheres interessadas em experiências ao ar livre. Muitas são elas que puxam a decisão das viagens dentro das famílias”, observa.9

30 anos de resistência e impacto social

Na mesma Serra Gaúcha, Mayumi Kurimori celebra em 2025 três décadas à frente da agência Vai Viver ao lado da sócia Cecília Fortunatti. Ela também começou aos 19 anos, enfrentando o ceticismo de um mercado masculino. “No início, muitas vezes sentimos que precisávamos provar constantemente nossa capacidade técnica e de gestão… era difícil acreditar em ‘2 meninas fazendo negócio’”, relata.

Hoje, a empresa atende um público majoritariamente feminino (60%) entre 45 e 65 anos. “São mulheres que trabalham muito, vivem em grandes centros urbanos e encontram nas viagens uma forma de desacelerar e cuidar da saúde física e emocional”, explica. O impacto de Mayumi transborda para a comunidade: “Quando levamos grupos para esses lugares, estamos ajudando a gerar renda e fortalecer iniciativas lideradas por mulheres”.

ayumi Kurimori e Cecília Fortunatti

O luxo do ritmo e o valor da autonomia

Para Lia Barros, fundadora da Slow & Steady Travel, a inovação está em “perceber com clareza o que o mercado faz no automático e ter coragem para fazer diferente”. Com atuação no Brasil e na Argentina, ela desenhou uma proposta para mulheres 50+ que buscam conforto e propósito.

Sua trajetória prova que o empreendedorismo feminino “raramente acontece em linha reta”. Lia enfrentou a pandemia e um tratamento de câncer de mama, o que a levou a reestruturar a empresa para que ela não dependesse exclusivamente de sua presença. “Vivi o impacto da pandemia no turismo, precisei rever formatos de operação… Saia dessa fala de que ‘recomeço é perda’, que traz medo quando deveria trazer coragem decisória”, afirma Lia, que já atendeu cerca de 900 viajantes focando no ritmo humano.ia Barros na Patagônia argentina

Uma transição cultural em curso

Apesar das vitórias, o setor ainda lida com o que Lejania Malheiros, presidente da Abeta – Associação Brasileira das Empresas de Ecoturismo e Turismo de Aventura, chama de “transição cultural”. Ela nota que percepções antigas ainda persistem, exigindo que mulheres reafirmem sua autoridade técnica constantemente. “Isso mostra que ainda estamos vivendo um momento de transição cultural. O espaço das mulheres no turismo vem crescendo de forma muito consistente, mas algumas percepções e hábitos ainda estão em processo de mudança”, analisa.

Para July Costa, diretora de comunicação da Abeta, a conexão entre o feminino e a natureza é a força motriz dessa mudança, com a força, o cuidado e a capacidade de regeneração das mulheres se convertendo cada vez mais na liderança de negócios.

“A Abeta tem orgulho de fazer parte desse movimento. Hoje, mais de 70% da diretoria da associação é composta por mulheres, um marco que reflete não apenas representatividade, mas competência, visão e compromisso com o desenvolvimento qualificado do turismo de natureza no Brasil”, afirma.

Os recordes do turismo brasileiro nos últimos anos mostram que o mercado ruma para uma maturidade onde a resiliência, a pluralidade e a sensibilidade socioambiental crescem à medida em que as a atuação das mulheres na linha de frente sustenta essa expansão.

Lejania conclui que o caminho para superar as barreiras de crédito e renda — onde mulheres ainda ganham 24,4% menos que homens — passa pelo fortalecimento do coletivo. “Acredito muito na força do coletivo para superar essas barreiras. O associativismo tem um papel fundamental nesse caminho, porque cria redes de apoio, dá visibilidade às mulheres que atuam no setor e ajuda a fortalecer referências para as novas gerações. No fim, promover ambientes mais diversos e respeitosos não é apenas uma questão de equidade, é também uma forma de fortalecer o próprio setor.”

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