Em um segmento onde mulheres representam até 80% da força de trabalho operacional, presença feminina avança também em cargos estratégicos, impulsionando inovação, governança e mudança de percepção
A transformação da motelaria brasileira tem gênero e ele é feminino. Em um setor onde as mulheres sempre foram maioria nos bastidores, especialmente nas áreas operacionais, agora elas avançam para posições estratégicas e passam a conduzir um processo consistente de modernização da gestão, qualificação profissional e reposicionamento institucional do segmento.
Segundo a Organização Mundial do Turismo (OMT), as mulheres representam mais de 50% da força de trabalho global no setor de turismo e hospitalidade. No Brasil, dados do Ministério do Turismo apontam predominância feminina nas atividades de serviços e hospitalidade, cenário que também se reflete na motelaria. O movimento atual indica uma nova etapa: além de representarem maioria na base da operação, elas passam a ocupar também espaços de liderança e decisão.
Historicamente, a motelaria esteve associada a uma estrutura de gestão predominantemente masculina, reflexo do perfil empresarial e da forma como o setor era percebido socialmente nas décadas anteriores. A ampliação da presença feminina em posições estratégicas marca uma inflexão nesse cenário e acompanha a evolução do próprio segmento, que hoje se posiciona como parte da hospitalidade, com foco em experiência, governança e qualificação dos serviços.
“Não escolhi a motelaria, comecei por acaso. Mas passei a enxergar o setor como parte legítima da hospitalidade e com grande potencial de evolução em gestão, experiência e posicionamento de mercado”, afirma Larissa Calabrese, presidente-executiva da Associação Brasileira de Motéis (ABMotéis). Sua trajetória foi construída dentro desse processo de profissionalização, com atuação voltada à qualificação técnica, desenvolvimento de projetos institucionais, pesquisas e iniciativas que contribuem para elevar o padrão do segmento.
Para Larissa, a presença feminina na liderança tem ampliado a diversidade de perspectivas na gestão e fortalecido uma condução mais integrada entre áreas estratégicas e operacionais. “É comum observar uma abordagem mais analítica, criteriosa e multidisciplinar, o que favorece processos mais estruturados e decisões mais consistentes. Em um setor que envolve hospitalidade, operação complexa e reposicionamento de imagem, essa visão sistêmica colabora diretamente para a modernização das empresas”, completa.
A trajetória de Ana Medeiros mostra como esse protagonismo também se constrói ao longo de décadas. Ingressou na motelaria em 1990, inicialmente no setor administrativo do Motel Faraós, e construiu uma carreira de 30 anos na mesma rede, passando por diferentes unidades até assumir a gerência administrativa e operacional. “No início enfrentei preconceito, inclusive de pessoas próximas. Mas encontrei no setor um espaço de aprendizado e crescimento”, relembra. Desde 2021, Ana integra a ABMotéis e a Associação Paulista de Motéis (APAM), atuando na organização de eventos e na área administrativa.
Ana destaca que a presença feminina sempre foi expressiva nas equipes. “A mão de obra feminina sempre representou cerca de 80% do quadro operacional e administrativo. As mulheres são detalhistas, comprometidas e estão sempre dispostas a aprender e replicar o conhecimento.” Para ela, os desafios atuais incluem a escassez de mão de obra qualificada e a superação de preconceitos históricos ainda associados ao setor.
Fora do eixo São Paulo, a pernambucana Carla Guerra representa um novo perfil de liderança técnica. Administradora hospitalar com mestrado em controle de infecção, ela chegou à motelaria durante a pandemia de 2020 para desenvolver protocolos sanitários voltados à retomada das operações de um grupo de motéis em Recife. O trabalho ganhou repercussão nacional e, dois anos depois, ela decidiu se dedicar integralmente ao segmento como consultora e gestora.
Para Carla, a liderança feminina traz uma abordagem centrada em pessoas. “É uma forma diferente de gerir: com escuta ativa, acolhimento e um olhar genuíno para os colaboradores. São eles que elevam a empresa.” Segundo ela, inovação só acontece quando há envolvimento de quem está na linha de frente. “Ouvir quem executa é o que garante que as mudanças realmente funcionem.”
Entre os desafios apontados pelas três líderes estão a necessidade contínua de profissionalização da gestão, a adaptação às novas demandas do consumidor, cada vez mais orientado por experiência e qualidade, e, também, a ampliação da presença feminina em posições estratégicas e técnicas.
Mais do que ocupar espaços, a liderança feminina tem contribuído para redefinir padrões de governança, fortalecer a comunicação institucional e elevar o nível de qualificação dos serviços. O avanço das mulheres na gestão da motelaria brasileira não é apenas um movimento de representatividade, é parte de uma transformação estrutural que acompanha a evolução da hospitalidade contemporânea.
Mais sobre a ABMotéis
A Associação Brasileira de Motéis (ABMotéis) é a única entidade representativa do setor no país e reúne cerca de 560 motéis associados em 17 estados e no Distrito Federal. Atua no reposicionamento da motelaria como espaço de lazer, experiência e hospitalidade.






